As primeiras horas de Cicero Bley no Haiti

Representando o Comitê na missão comandada pela Agência Brasileira de Cooperação, Cicero Bley escreveu, diretamente de Porto Príncipe, depoimento das primeiras horas em solo haitiano. Confira.

Cícero faz parte de uma equipe que está levantando dados para a possível implementação de projeto do Grupo Moradia, proposto por Itaipu para a ABC.

Colegas da Itaipu e do Comitê Solidariedade ao Haiti,

Uma hora e meia de voo de Miami, através do mar azul turquesa do Caribe, passando em cima da ponta da ilha de Cuba, aterrisamos em Porto Príncipe. O aeroporto, uma instalação reconstruída pela Marinha Americana 15 dias depois do terremoto, é um acampamento improvisado, desorganizado, cheio de materiais e sucatas de equipamentos velhos e lixo por toda parte. A alfândega, um barracão de zinco e dentro cinco guichês improvisados de madeira e uma esteira rolante. A descarga das bagagens é manual e por fora do barracão. Malas individuais, malas de missões humanitárias, containeres com materiais médicos, tudo atirado na esteira pela turma da descarga. A operação com bagagens de mais de 200 pessoas levou um tempo praticamente igual ao tempo de voo. Uma hora e vinte dentro do barracão sob sol caribenho de 35 graus.

Do aeroporto fomos primeiro para a casa oficial do Embaixador Brasileiro Igor Kipman e a embaixatriz Rosana que nos receberam no melhor estilo brasileiro, calorosa acolhida. Na varanda da casa em três níveis, bem tropical, com suco e biscoito. No percurso entre o aeroporto, que fica ao nível do mar e a casa que fica num bairro de finas residências, numa encosta, tive os primeiros 40 minutos do Haiti real. Foram terríveis, não há outra palavra. Subimos por ruas super estreitas, todas de mão dupla, com carros caindo aos pedaços. Muita gente andando nas ruas e nas calcadas. Um micro-comércio super intenso, em tendas minúsculas, com oferta de tudo. Alimentos, frutas, remédio e utensílios de tudo quanto é tipo. Cheguei a ver óleo lubrificante vendido em pequenos frascos, gasolina e diesel em potes de plástico. Entulhos de construções demolidas por todos os lados das ruas. Suspeita-se com evidências pelo tamanho dos montes de entulhos, que ainda há corpos soterrados, além dos 230 mil retirados e enterrados em valas comuns abertas com escavadeiras nos espaços possíveis.

Nos pequenos sobrados de dois andares com frente em cima da calçada, estão instalados os serviços de toda natureza, como salões de beleza, barbearias, casas de cambio, vendas de secos e molhados e igrejas. Muitas igrejas. Acho que vi todas as Pentecostais conhecidas e outras inventadas por aqui e também a Igreja Católica. Vi ainda alguns Centros Espíritas de denominações africanas. Praticamente em cada quadra uma oferta religiosa. Nos micro-ônibus e lotações, são pintadas algumas citações bíblicas, ou uma alusão a Cristo e a Deus. Um oficial da Embaixada chegou a nos dizer que “o excesso de religiosidade levou esse povo a mais profunda desagregação enquanto nação”. Eu cá tenho minhas dúvidas, se este excesso de ligação com o sagrado, não é a única maneira humana de suportar tamanha desgraça.

Vê-se que a demolição do estado haitiano é tanto física pelo terremoto, como política pela degradante escalada da corrupção praticada durante décadas, como parte de uma estratégia de enfraquecimento do País. Parece que tudo está ligado ao fato da independência ter sido realizada por escravos negros e pobres, que depois da libertação ainda foram obrigados a pagar a França pelos “gastos com o desenvolvimento antes da independência”. Fizeram isto para poder existir entre as nações unidas e literalmente demoliram a economia interna. Enquanto o FMI – Fundo Monetário Internacional aplicava aqui, na íntegra, a teoria do estado mínimo que tão bem conhecemos e que acabou de desestruturar completamente as instituições. Ministérios e vários serviços existem no papel, mas não são encontrados. Nesta fase, bem antes do terremoto de 12 de janeiro, até o exército foi extinto. Quando isso aconteceu quem estava por perto simplesmente pegou armas e munições e as levou para casa. A partir daí começaram a aparecer as milícias e com essas os assaltos e sequestros em várias intensidades. Instalou-se a barbárie e foi dai a ONU teve que intervir, enviando tropas inclusive a brasileira, de quem ouvimos esses registros e relatos históricos.

Para aprofundar pode-se ler o livro A República Negra, de Luiz Kawaguti,  jornalista da Folha de São Paulo, que passou um tempo estudando esta história do haiti.

Da casa do Embaixador, mais meia hora e chegamos à Embaixada do Brasil, que por ter seu prédio principal ser atingido pelo terremoto e estar em reforma, foi improvisada no Centro Cultural Brasil, aonde em tempos normais eram oferecidas várias atividades como aulas de português, capoeira, musica e cultura brasileira. Tudo instalado em total improvisação. Numa sala de aula fizemos a primeira reunião da missão de oito pessoas do Brasil representando varias instituições. Eu me apresentei representando o Comitê de Empregados da Itaipu, para a Solidariedade ao Haiti.

Na praça em frente a Embaixada Brasileira estão acampadas 3 mil pessoas. Quase a população de Entre Rios Do Oeste. Com barracas doadas e improvisadas de todo tipo de lonas, a praça é ao mesmo tempo dormitório, refeitório e banheiro. Número um em qualquer lugar, número dois, quando dá,  em banheiros químicos cujas portas são lonas penduradas. Esgoto a céu aberto e lixo por todo canto. Um cheiro terrível.

Uns quinhentos metros mais acima da colina há outra praça. Esta com 10 mil desabrigados nas mesmas condições. Fui ali falar com o pessoal e me contaram que alguns deles ainda tem casas inteiras, ou semi demolidas, mas moram ali porque já se anunciou que está a caminho um novo terremoto, que ninguém sabe quando ocorrerá. Diante disso, preferem morar nas barracas nas praças, ruas, campos de futebol e terrenos na frente das próprias casas, do que voltar a morar dentro das casas convencionais. O pessoal entende isto, como a “síndrome do concreto”. A cultura de construção civil por aqui gerou edificações muito pesadas nas lajes e muito frágeis nos pés-direitos, construídas com agregados redondos, cimento fraco, areia do mar, água salobra e ferragens inadequadas. Ou seja, um terremotinho colocaria a maioria a baixo.

Um milhão e meio de pessoas vivem nestas condições.

No meio da multidão vi muitas crianças todas arrumadinhas indo para a escola. Às vezes levadas pelas mães, às vezes agarradas umas as outras, como num comboio. Cada escola com seus uniformes próprios. Vermelhos, azuis, verdes. Tudo combinando na cor, inclusive os vários tipos de laços nos cabelos. Vão para escolas pagas, o que obriga os mais pobres a alternar a frequência as aulas. Num ano vai um filho e no outro vai o outro, para que todos possam ter acesso a um mínimo de educação. E isto sem nenhuma programação, nenhum incentivo de governo. Espontânea freação popular e crença inabalável no futuro.

A partir daí comecei a perceber que o povo, de maioria absoluta negra, é muito bonito. Mulheres, homens e crianças apresentam uma altivez e uma grande dignidade. Estão atentos a tudo o que se passa em volta, como que permanentemente ameaçados.. Não gostam de ser fotografados, levamos algumas broncas e tivemos que fotografar de dentro do carro com janelas fechadas. Mas de maneira geral são amistosos, creio que suportam bem os brancos que de repente invadiram suas ruas. São 290 ONGs cadastradas na Minustah – como é conhecida a coordenação da ONU que tudo organiza e controla e dizem que somam mais de 10 mil ONGs com vários tipos de ajuda humanitária, procurando sintonia com o povo.

Vendo o mundo se mobilizando efetivamente (até em excesso) para ajudar de fato os haitianos a suportar a desgraça (isto, como empregados da Itaipu, nos inclui integralmente nesta ação humanitária).

Vendo um povo mantendo alegria e dignidade no olhar e no porte físico, apesar das mutilações e de todo medo que sofreu e sofre.

Vendo a criançada, meninos, meninas indo para as escolas, com as famílias acreditando e investindo na educação como maneira de salvar, pelo menos as novas gerações.

Eu renovo minhas esperanças de viver em um mundo diferente.

And I think to myself, what a wonderfull world.

Por Cicero Bley

Compartilhe